O estojo de marcadores
O estojo de marcadores, na loja do chinês, estava a chamar por mim. Já me tinha sussurrado ao ouvido, em outras ocasiões em que lá fui para adquirir uns acessórios domésticos. A verdade é que, nestes locais, nunca se traz uma só coisa, há sempre mais alguma bugiganga que nos convida à adoção capitalista e caímos na conversa fiada, sem grande resistência. Neste caso, o estojo - havia várias tipologias, com diferentes números, tamanhos e preços – estava a pedir colinho, não sei porquê. Escolhi o mais barato, como forma de aquietar a culpa consumista que me martelava, e voltei para casa um bocadinho orgulhosa da minha compra.
Desde muito cedo, percebi que a criatividade sustenta a minha essência: dar asas à imaginação e viver no mundo dos sonhos faz parte do meu quotidiano. Contudo, a criação por via do desenho, a pintura ou a escultura nunca integraram as áreas da minha vocação ou interesse. Por outras palavras, sempre me assumi como uma pessoa com zero talento para as artes visuais e para as manualidades, no geral. Os outros, à minha volta, corroboraram a minha incapacidade para o trabalho com as mãos ou o artesanato, nas suas diferentes modalidades, tendo sido, inclusive, motivo de gozo, em algumas das minhas tentativas para produzir artefactos fazendo uso dos membros superiores. Prova disto, foi o facto ter tido uma negativa, no 2º ciclo, na disciplina de Educação Visual pela monstruosidade que eu exibi como sendo um paliteiro de cartão.
O problema das crenças é que se cristalizam dentro da nossa consciência, transformando a nossa realidade. Não temos jeito para desenhar, então, não voltamos a tentar. Não sabemos tocar piano, alguém nos disse que temos “ouvidos de pedra” e, por isso, não experimentamos, de novo, um teclado, nem que seja, só “a brincar”. Passamos a acreditar, piamente, de que não vale a pena explorar aquela (s) atividade (s), somente porque os resultados não estão à altura dos padrões exigidos.
É evidente que há, em todos os domínios, pessoas extraordinárias no que fazem e não contesto o talento inato dos seres geniais que criaram, ao longo do tempo, verdadeiras obras de culto. Porém, hoje emerge-me outra reflexão: será que é preciso sermos todos um Picasso para termos a honra de sentir o assombro de contemplar uma paleta de cores numa tela? Será possível experimentar, criar, fluir, pelo simples prazer do processo, da exploração inocente da descoberta, da paixão de quem não sabe para onde vai….em vez da busca incessante de um determinado resultado que nos coloque, no mínimo, nos umbrais da História?!
Voltei a fazer rabiscos nas minhas folhas, utilizando os marcadores mágicos dos chineses. Acho que eles me deram um empurrão para me desprender (um pouco mais) das limitações daquilo do que sou ou não capaz. Por causa disso, recuperei a memória de, em miúda, de fazer desenhos bonitos para que o meu pai os vendesse aos seus clientes. Fi-los com a intenção de ajudar o meu pai a ter mais dinheiro em casa - lembro-me bem do sentimento. Mas também me recordo de que não punha em causa a qualidade das garatujas coloridas que eu produzia naquela época. Não me achava desmerecedora de desenhar, por não o saber fazer com qualidade. A crianças desenham sem qualquer pretensão ou julgamento – e haverá algo melhor do que a pureza de um rabisco infantil?
Talvez seja hora de retomar as pinturas e fazer as pazes com a crença de que não tenho jeito nenhum com as mãos. Começo a sentir que pouco importa a avaliação da minha habilidade e concentro-me na sensação de presença que me evoca o contacto com as folhas, os lápis e os marcadores. O impulso, que salpica a cada traço, reflete a cor da minha alma.
“Pintar é libertar-se, e isso é o essencial.”
Texto en español
El estuche de marcadores
El estuche de marcadores, en la tienda del chino, estaba llamando por mí. Ya me había susurrado al oído, en otras ocasiones en que fui allí para adquirir unos accesorios domésticos. La verdad es que, en estos lugares, nunca se trae una sola cosa, siempre hay alguna otra que nos invita a la adopción capitalista y caemos en la trampa, sin mucha resistencia. En este caso, el estuche - había varias tipologías, con diferentes números, tamaños y precios - estaba pidiendo para que lo llevara, no sé por qué. Elegí el más barato, como forma de calmar la culpa consumista que me martillaba, y volví a casa un poco orgullosa de mi compra.
Desde muy joven, me di cuenta de que la creatividad sustenta mi esencia: dar rienda suelta a la imaginación y vivir en el mundo de los sueños forma parte de mi vida diaria. Sin embargo, la creación a través del dibujo, la pintura o la escultura nunca integraron las áreas de mi vocación o interés. En otras palabras, siempre me he considerado como una persona con cero talento para las artes visuales y para las manualidades en general. Los otros, a mi alrededor, corroboraron mi incapacidad para el trabajo con las manos o la artesanía, en sus diferentes modalidades, habiendo sido incluso motivo de riza, en algunas de mis tentativas de producir artefactos haciendo uso de los miembros superiores. Prueba de ello fue el hecho de haber tenido una negativa en la primaria en la disciplina de Educación Visual por la monstruosidad que exhibí como si fuera una caja para escarbadientes.
El problema de las creencias es que se cristalizan dentro de nuestra conciencia, transformando nuestra realidad. No tenemos habilidad para dibujar, así que no lo intentamos de nuevo. No sabemos tocar el piano, alguien nos ha dicho que tenemos "oídos de piedra" y por eso no hemos vuelto a probar un teclado, aunque sea solo para jugar. Hemos llegado a creer, fervientemente, que no vale la pena explorar esa (s) actividad (s), solo porque los resultados no están a la altura de los estándares exigidos.
Es evidente que hay, en todos los ámbitos, personas extraordinarias en lo que hacen y no contesto el talento innato de los seres geniales que han creado, a lo largo del tiempo, verdaderas obras de culto. Sin embargo, hoy me surge otra reflexión: ¿es necesario que todos seamos un Picasso para tener el honor de sentir la sorpresa de contemplar una paleta de colores en una tela? Será posible experimentar, crear, fluir, por el simple placer del proceso, de la exploración inocente del descubrimiento, de la pasión de quien no sabe a dónde va... en lugar de la búsqueda incesante de un determinado resultado que nos coloca, al menos, en los umbrales de la historia?!
He vuelto a hacer dibujos en mis hojas, utilizando los marcadores mágicos de los chinos. Creo que me dieron un empujón para desprenderme (un poco más) de las limitaciones de lo que soy o no soy capaz. A causa de eso, recuperé la memoria de, de niña, hacer dibujos bonitos para que mi papá los vendiera a sus clientes. Los hice con la intención de ayudar a mi papá a tener más dinero en casa - recuerdo bien el sentimiento. Pero también recuerdo que no ponía en duda la calidad de las garatujas coloridas que yo producía en aquella época. No me consideraba indigna de dibujar, por no saber hacerlo con calidad. Los niños dibujan sin ninguna pretensión o juicio - ¿hay algo mejor que la pureza de un dibujo infantil?
Tal vez sea hora de volver a pintar y reconciliarme con la creencia de que no sé manejar las manos. Comienzo a sentir que poco importa la evaluación de mi habilidad y me concentro en la sensación de presencia que me evoca el contacto con las hojas, los lápices y los marcadores. El impulso, que salta a cada paso, refleja el color de mi alma.
"Pintar es liberarse, y eso es lo esencial."
(Pablo Picasso)



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