O homem que poupava palavras - Parte II
O homem que poupava palavras, engolia-as de uma só vez. Quando apanhava um vocábulo a jeito, não se fazia de rogado com hesitações de meia tigela, enfiava o dito pela goela abaixo, receando que, se a espera se prolongasse, surgisse a tentação de proferir uma pequena frase. A aflição era muita e, em certas ocasiões, a garganta parecia que lhe poderia implodir, a qualquer momento. De tão confinadas, as palavras começaram a encolher-se, formando emaranhados de letras que se fundiam em milhares de nós. As palavras atemorizavam-no, desde pequeno. Primeiro porque não sabia o significado de grande parte do léxico usado, tendo-lhe sido custosa a capacidade para interpretar a linguagem, quiçá, por já se supor um desdém na sua familiarização. Virgílio tinha medo das palavras e do mistério que alberga o momento em que se se desconhece o conteúdo da mensagem, essa barreira que se ergue entre os mais ou menos instruídos. Considerou o muro demasiado alto para se assomar e tentar descobrir o ma...









