A sombra do que foi e do que poderia ter sido
Quem tem a infelicidade de ficar órfão muito cedo, como eu, aprende a (con) viver com a sombra do que foi e do que poderia ter sido. Sempre detestei a palavra “órfão/órfã” e continuo a não apreciar escutá-la em voz alta, muito menos, pensar neste vocábulo empregue à minha pessoa. No entanto, assumir o significado deste adjetivo/substantivo permite situar-me na reflexão dos processos de luto que lhe estão subjacentes. O tempo passa e as memórias dos dias partilhados desvanecem - faz parte do percurso natural da vida. Como a voz da alma continua a exclamar pelo progenitor que partiu, vamos encaixando retalhos mnemónicos na narrativa do presente, como forma de evitar que a chama do nosso ente querido desapareça totalmente. O amor não diminui, em alguns casos até se expande, e a saudade corresponde a um (novo) parente que começa a participar de todas as ocasiões familiares. Gosto muito de me recordar da minha mãe e de falar dela, aos outros. Talvez para sentir que, no fundo, ela continua p...









